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quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Partida, a respeito de George Willard (Departure, Concerning George Williard)

Partida, a respeito de George Willard (Departure, Concerning George Williard) - A Tradução Livre


O jovem George Willard saiu de sua cama às 4 da manhã. Era abril e as jovens folhas das árvores estavam já saindo de seus botões. As árvores ao longo das ruas residenciais em Winesburg são bordos e as sementes voam. Quando o vento bate, elas giram loucamente pelo ar, preenchendo-o e criando um carpete sob os pés.

George desceu as escadas para o escritório do hotel carregando uma bolsa de couro marrom. Seu baú estava pronto para a partida. Desde duas horas ele estava acordado pensando na jornada que estava prestes a fazer e se perguntando o que encontraria ao final dela. O garoto que dormia no escritório estava sobre uma cama perto da porta. Sua boca estava aberta e ele roncava vigorosamente. George passou se arrastando pela cama e saiu para o silêncio da deserta rua principal. O leste estava rosa com o amanhecer e longas faixas de luz se erguiam no céu onde algumas estrelas ainda brilhavam.

Além da última casa de Trunion Pike em Winesburg há um grande trecho de campos abertos. Os campos pertencem a fazendeiros que vivem na cidade e dirigem para casa à noite pelo Trunion Pike em leves carroças estalantes. Nos campos são plantadas pequenas frutas. Ao final da tarde em verões quentes quando a estrada e os campos estão cobertos com poeira, uma densa neblina cobre a enorme e plana área de terra. Olhar em frente é como olhar para o mar. Durante a primavera, quando a terra está verde, o efeito é de certa forma diferente. A área se torna uma enorme mesa de bilhar verde sobre a qual pequenos insetos humanos trabalham para lá e para cá.
Por toda sua infância e adolescência George Willard tivera o hábito de caminhar na Trunion Pike. Ele estivera no meio de um enorme lugar aberto nas noites invernais quando estava coberto com neve e apenas a lua olhava-o de cima; estivera lá durante o outono quando ventos desoladores assopravam e em noites de verão quando o ar vibrava com a música dos insetos. Na manhã de abril ele queria ir lá novamente, andar de novo em silêncio. Ele andou até onde a estrada mergulhava ao lado de um pequeno riacho a duas milhas da cidade e depois se voltou caminhou silenciosamente pelo caminho de volta. Quando ele chegou à rua principal, os funcionários estava varrendo as calçadas em frente às lojas. “Ei, George. Como é estar indo embora?” eles lhe perguntavam.
O trem em direção ao oeste deixa Winesburg às sete e quarenta e cinco da manhã. Tom Little é o condutor. Seu trem vai de Cleveland até onde se conecta com uma grande linha principal da ferrovia com terminais em Chicago e Nova Iorque. Tom tem o que nos círculos ferroviários se chama ‘viagem fácil’. Toda noite ele retorna para sua família. No outono e primavera ele passa os domingos pescando no Lago Erie. Ele tem um rosto redondo e pequenos olhos azuis. Ele conhece as pessoas nas cidades ao longo de sua ferrovia melhor do que um homem da cidade conhece as pessoas que moram no prédio de seu apartamento.
George desceu a pequena inclinação da New Willard House às sete horas. Tom Willard carregou sua mala. O filho havia se tornado mais alto que o pai.
Na plataforma da estação todos apertaram a mão do jovem homem. Mais de uma dúzia de pessoas esperavam ali. Depois eles falaram sobre seus próprios assuntos. Até Will Henderson, que era preguiçoso e geralmente dormia até às nove, havia saído da cama. George estava embaraçado. Gertrude Wilmot, uma alta e magra mulher de cinquenta anos que trabalhava no correio de Winesburg veio para a plataforma da estação. Ela nunca havia prestado atenção em George antes. Agora ela parava e lhe dava sua mão. Em duas palavras ela expressou o que todos sentiam. “Boa sorte”, ela disse fortemente e depois se virou e retomou o seu caminho.
Quanto o trem chegou à estação, George se sentiu aliviado. Ele correu rapidamente para dentro. Helen White veio correndo pela rua principal esperando ter uma rápida conversa de despedida com ele, mas ele havia encontrado um assento e não a viu. Quando o trem começou a se mover, Tom Little fez um buraco em seu bilhete, sorrindo e, embora ele conhecesse bem George e em qual aventura ele estava se metendo, não fez nenhum comentário. Tom vira centenas de George Willards saírem de seus vilarejos para a cidade grande. Era um lugar-comum bem incidente com ele. No vagão para fumantes havia um homem que acabara de convidar Tom para ir em uma viagem de pesca na Baía Sandusky. Ele queria aceitar o convite e conversar sobre os detalhes.
George olhou para cima e para baixo no vagão para se certificar que ninguém estava olhando, e então tirou sua carteira de bolso e contou seu dinheiro. Sua mente estava ocupada com o desejo de não parecer imaturo. Quase todas as últimas palavras que seu pai lhe dissera tratavam sobre o assunto de sua conduta quando chegasse à cidade. “Seja astuto”, Tom Willard dissera. “Mantenha seus olhos no seu dinheiro. Fique esperto. Aqui está o bilhete. Não deixe ninguém pensar que você é inexperiente.”
Depois que George contou seu dinheiro, ele olhou pela janela e ficou surpreso por ver que o trem ainda estava em Winesburg.
O jovem homem, saindo de sua cidade para encontrar aventura na vida, começou a pensar, mas não pensou em nada muito grande ou dramático. Coisas como a morte de sua mãe, sua partida de Winesburg, a incerteza de sua vida futura na cidade, os aspectos mais sérios e grandes de sua vida não vieram à sua mente.
Ele pensou sobre as coisas pequenas – Turk Smollet pendurando avisos pela rua principal de sua cidade de manhã, uma mulher alta, belamente vestida, que havia uma vez pernoitado no hotel de seu pai, Butch Wheeler, o acendedor de luminárias de Winesburg, correndo pelas ruas em uma noite de verão e segurando uma tocha em sua mão, Helen White perto de uma janela no correio de Winesburg e colocando um selo em um envelope.
A mente do jovem homem deixou-se levar por sua crescente paixão por sonhos. Apenas um olhar para ele não o faria parecer particularmente esperto. Com a recordação de coisas pequenas ocupando sua mente, ele fechou os olhos e se inclinou para trás no assento do vagão. Ele ficou desse jeito por muito tempo e quando se levantou e novamente olhou para fora pela janela do vagão a cidade de Winesburg desaparecera e sua vida lá se tornara apenas um pano de fundo sobre o qual pintar os sonhos de sua vida adulta.

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Tradução do Original 'Departure, Concerning George Williard', parte do livro 'Winesburg, Ohio' de Sherwood Anderson: http://goo.gl/c02btc

2 comentários:

  1. Era abril e as jovens folhas das árvores estavam já saindo de seus botões. As árvores ao longo das ruas residenciais em Winesburg são bordos e as sementes voam. Quando o vento bate, elas giram loucamente pelo ar, preenchendo-o e criando um carpete sob os pés.


    Criei meu cenário mentalmente e.... foi lindo :)

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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